O mundo em que vivi

O mundo em que vivi / Ilse Losa. 5a ed., refundida. Porto : Afrontamento, 1987. Capa de Ângela Melo.  (Atualmente na  29ª edição)
(fonte da imagem)

Ver capas da 1ª edição e 5ª edições aqui
1987_Ilselosa_Mundoemquevivi [Texto da contracapa, datado de Novembro de 1989, da autoria de Óscar Lopes, a quem o livro é dedicado]: «Numa escrita inexcedivelmente sóbria e transparente, e através de breves episódios, este romance conduz-nos em crescendo de emoção desde a primeira infância rural de uma judia na Alemanha, pelos finais da Primeira Guerra Mundial, até ao avolumar de crises (inflação, desemprego, assassínio de Rathenau, aumento de influência e vitória dos Nazistas) que por fim a obrigam ao exílio mesmo na eminência de um destino trágico num campo de concentração. Há uma felicíssima imagem simbólica de tudo, que é a do lento avançar de uma trovoada que acaba por estar «mesmo em cima de nós». Assistimos aos rituais judaicos públicos e domésticos, a uma clara atracção alternativa entre a imigração para os Estados Unidos da América e o sionismo. Fica-se simultaneamente surpreendido pela correspondência e pelas diferenças entre o adolescer e o viver adulto em meios culturais muito diversos, pois há relances de vida religiosa luterana, católica e de agnosticismo à margem da experiência judaica ortodoxa. Perpassam figuras familiares de recorte nítido: os avós da aldeia, o pai, negociante de cavalos, desfeiteado por anti-semitas e falecido de cancro, os tios progressistas Franz e Maria, o avô Markus, a amorável avozinha Ester (kleine Oma), Paul (o jovem quase namorado que se deixa intimidar pelo ambiente), Kurt (o jovem enamorado assolapado, culto e firme nas suas convicções). A acção é desfiada numa sucessão de fases biográficas progressivamente dramáticas — e nós acabamos por participar afectivamente de um destino ao mesmo tempo muito singular e muito típico, que bem nos poderia ter cabido. Um romance de características únicas na literatura portuguesa — e emocionalmente certeiro.» Fonte
(…)

Recensão Casa da Leitura: «Denso, genuíno, sóbrio, forte, dramático, emocionante, numa palavra, singular, este romance de Ilse Losa (1913-2006), autora galardoada em 1984 com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças, é já um clássico da literatura infanto-juvenil portuguesa. Tendo como cenário a Alemanha de Hitler, esta é uma narrativa na primeira pessoa protagonizada por Rose, uma menina judia que conta as suas vivências familiares e religiosas, dando conta também de alguns dos momentos cruciais do seu crescimento. A densidade psicológica da heroína, em especial a sua força de viver, e o realismo descritivo que marca os cenários (em muitos momentos, pontuados por elementos de índole contextual/histórica), a par das reconhecíveis marcas de autobiografismo (romanceado), não deixam que o leitor abandone a leitura deste livro, publicado pela primeira vez em 1943. | Sara Reis da Silva»

Ler alguns capítulos do livro aqui

2 responses to “O mundo em que vivi

  1. Pingback: Flores para Ilse Losa | Ilse Losa

  2. Manuela DLRamos

    Excerto

    «O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios. O Sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam-lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão. Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos. De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o Sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrizinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder «Israelita» à pergunta do Sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: «Quando o Sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia». Eu não concordava, porque achava «israelita» uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi “negociante de cavalos”. Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de «sou israelita», que o meu pai era «comerciante».

    O liceu ficava em L…, a cidade onde havia o teatro e a sinagoga. Tomávamos, manhã cedo, o comboio e, com gesto arrogante, estendíamos o passe anual ao revisor.

    No primeiro dia de aulas tivemos de dizer o nosso nome e profissão do pai e a religião. Conforme recomendação da minha mãe eu disse:

    – O meu pai é comerciante. Sou israelita.

    Na escola primária tudo fora natural. No liceu colegas viraram-se e olharam-me. Mais duas judias faziam parte da turma e uma delas, Hanna Berg, respondeu à pergunta com voz firme: “Sou judia”.»
    in O mundo em que vivi
    Transcrito daqui

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