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«escrever bem»

A transcrição lida aqui de alguns parágrafos do capítulo “Poesia” do livro de Ilse Losa,  Nós e a Criança levou-me a folhear esta obra originalmente publicada em 1954 e reeditada em 1980.
«escrever bem», também desse livro, é outro apontamento inspirador sobre o qual vale a pena reflectir, agora que se aproxima o início do ano letivo.

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Ver o índice do livro .

Flores para Ilse Losa

na data do seu falecimento  (Porto, 6 de janeiro de 2006)

Curta montagem com imagens de flores recolhidas de ilustrações dos seus livros por:

Citação

palavras_soltas«Aconselho toda a gente a ler O Mundo em que vivi, pois foi escrito não só para adolescentes, mas também para adultos.» Ilse Losa

Citação transcrita de uma entrevista feita à autora (quando ela tinha 70 anos) que se pode ler aqui

Imagem (da apresentação da autoria da C.M.deEsposende, durante o seminário comemorativo do centenário de Ilse Losa: “Sob céus estranhos, uma artista chamada Ilse”)

“Páscoa Branca” – excerto

«(…) Começa a nevar. Silenciosamente a nevar. E a terra, endurecida como um cadáver, cobre-se de branco, os ramos começam a desenhar-se em branco sobre o céu de um cinzento agora mais claro, numa delicadeza impressionante, confundindo-se com ele. Contenho a respiração. Toda eu espanto. Os flocos balançam, bailam lá fora onde não há sopro de vento, dentro do quarto, dentro de mim, brancura imaculada, tranquila… e então; por entre os troncos negros das macieiras, mudo como a natureza, a cauda entre as pernas altas, flocos de neve a cobrir-lhe o pêlo, o cão. Seguiu- me, portanto. Como há pouco, no cimo da escada da gare, fico transida de emoção. Era-me dolorosamente familiar, conhecia-o desde sempre, amava-o desde sempre, ouvia-o uivar por mim nas horas de angústia. “Tu?”, perguntei. E a palavra implantou-se no silêncio como uma árvore no deserto.
(…)
Vasto e verde, tão verde, o planalto estende-se até à orla da floresta. Nunca antes o azul do céu fora tão transparente, o amarelo dos dentes-de-leão tão radiante, o ar tão macio. Lado a lado, o cão e eu detemo-nos para em seguida recomeçarmos o nosso jogo de agarra, correndo e saltando para a direita, para a esquerda e em ziguezague, até cairmos exaustos sobre a relva, eu a cara em fogo, ele ofegante, a língua de fora. “Pobre, pobre”, digo e enterro a cabeça no seu pêlo, de onde lhe tiro carinhosamente algumas pétalas de macieira. E falo-lhe. Conto-lhe coisas, muitas coisas, e ele ouve, silencioso, pacífico como o cair das pétalas na Primavera e o da neve no Inverno. Não há pressa, não há horas. Tínhamos abandonado o tempo para nos instalarmos na vasta planície verde, onde as flores em lume são eternas. Ali não se conhece nem fim nem princípio, nada foi, nada é, nada será. Uma criança fala, e as suas palavras vão de alma a alma, em linha recta, sem curvas, sem desvios. Palavras sem fechaduras, sem chaves, sem rótulos, mas livres como pássaros, nuas como adolescentes banhando-se em fontes de floresta, imensas como o mar onde navegam barcos que não buscam margens nem destinos. E não há idade encerrada num ciclo iniciado nas trevas e terminando nas trevas. Sonhamos como se tivéssemos chegado da luz, vivêssemos na luz, regressássemos à luz…

– Posso entrar?
É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de morango, diz:
– O café vai-lhe saber bem, num dia como este.
E olhando o nevão por detrás da janela:
– Coisa tão rara, uma Páscoa branca.
– A janela, dantes, era muito estreita – digo eu – mas acho-a bonita assim larga.
E ela, surpreendida:
– Conhecia a casa? – Conhecia. E as macieiras também.»

Ilse Losa in “Páscoa Branca”, Caminhos Sem Destino, p.200
(Edições Afrontamento, Porto, 1991.)

Publicado pela primeira vez  em O Barco afundado (1979)

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Sugestão-  artigo de  análise literária de Karina Marques: O peso da memória coletiva na obra de Ilse Losa e Samuel Rawet (…) (2012)

“Beatriz e o Plátano” – Crónica de Ivo Cruz

«(…)Recebi-o como prémio. O meu primeiro prémio. Na escola Pero Vaz de Caminha, nome do escrivão da armada de navios de Pedro Alvares Cabral, escola nova que eu estreei, no meu 7ºano, ganhei o primeiro prémio de desenho. O melhor desenho da escola. Nunca tinha ganho qualquer prémio, até aí e poucos realmente ganhei até agora. À frente de toda a gente, o director da escola deu-me um livro. Disse umas palavras bonitas, eu curvei a boca e acenei a cabeça e depois da euforia e entusiasmo do reconhecimento, caí um pouco em mim pensando, enquanto fios de suor caiam do meu rosto, depois de um joguinho de bola, que se calhar seria melhor terem-me oferecido a bolita que deram ao terceiro lugar. Nesse dia não prestei muita atenção ao livro que recebi. Educado, agradeci o meu presente e com regozijo, recebi as palmas de todos. Meti o livro na sacola, da mesma forma que fazia com os livros da escola. Era mais um pensei. Depois lembro-me de correr para o campo, como qualquer criança o faz: com energia. E muitas mais pingas de suor perdi, até chegar a casa.

De regresso a casa, mal sabia que transportava um livro que iria emoldurar a minha infância e tornar-se um ícone, um valor para o que faço. Lutar pelo que acredito. Ilse Losa a escritora, escreveu-o numa prosa acessível, e até sedutora para crianças como eu, pouco habituadas a ler. (…)»  

  •  A ler o texto completo, obrigatoriamente ;-) aqui, pelo que diz dos plátanos, pelo que diz da leitura, pelo que diz deste livro de Ilse Losa.

A flor azul – 1955


Filme com as ilustrações de Mário Bonito e Fernando Bento (sobrecapa..) para o livro de Ilse Losa A flor azul  publicado pela Livraria Figueirinhas em 1955.

Música: “Sneeuwland” de Oskar Schuster (fonte http://freemusicarchive.org/ )

Beatriz e o plátano

Para acompanhar a leitura do livro... com fotos de (verdadeiros) plátanos monumentais. *