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Flores para Ilse Losa

na data do seu falecimento  (Porto, 6 de janeiro de 2006)

Curta montagem com imagens de flores recolhidas de ilustrações dos seus livros por:

“Páscoa Branca” – excerto

«(…) Começa a nevar. Silenciosamente a nevar. E a terra, endurecida como um cadáver, cobre-se de branco, os ramos começam a desenhar-se em branco sobre o céu de um cinzento agora mais claro, numa delicadeza impressionante, confundindo-se com ele. Contenho a respiração. Toda eu espanto. Os flocos balançam, bailam lá fora onde não há sopro de vento, dentro do quarto, dentro de mim, brancura imaculada, tranquila… e então; por entre os troncos negros das macieiras, mudo como a natureza, a cauda entre as pernas altas, flocos de neve a cobrir-lhe o pêlo, o cão. Seguiu- me, portanto. Como há pouco, no cimo da escada da gare, fico transida de emoção. Era-me dolorosamente familiar, conhecia-o desde sempre, amava-o desde sempre, ouvia-o uivar por mim nas horas de angústia. “Tu?”, perguntei. E a palavra implantou-se no silêncio como uma árvore no deserto.
(…)
Vasto e verde, tão verde, o planalto estende-se até à orla da floresta. Nunca antes o azul do céu fora tão transparente, o amarelo dos dentes-de-leão tão radiante, o ar tão macio. Lado a lado, o cão e eu detemo-nos para em seguida recomeçarmos o nosso jogo de agarra, correndo e saltando para a direita, para a esquerda e em ziguezague, até cairmos exaustos sobre a relva, eu a cara em fogo, ele ofegante, a língua de fora. “Pobre, pobre”, digo e enterro a cabeça no seu pêlo, de onde lhe tiro carinhosamente algumas pétalas de macieira. E falo-lhe. Conto-lhe coisas, muitas coisas, e ele ouve, silencioso, pacífico como o cair das pétalas na Primavera e o da neve no Inverno. Não há pressa, não há horas. Tínhamos abandonado o tempo para nos instalarmos na vasta planície verde, onde as flores em lume são eternas. Ali não se conhece nem fim nem princípio, nada foi, nada é, nada será. Uma criança fala, e as suas palavras vão de alma a alma, em linha recta, sem curvas, sem desvios. Palavras sem fechaduras, sem chaves, sem rótulos, mas livres como pássaros, nuas como adolescentes banhando-se em fontes de floresta, imensas como o mar onde navegam barcos que não buscam margens nem destinos. E não há idade encerrada num ciclo iniciado nas trevas e terminando nas trevas. Sonhamos como se tivéssemos chegado da luz, vivêssemos na luz, regressássemos à luz…

– Posso entrar?
É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de morango, diz:
– O café vai-lhe saber bem, num dia como este.
E olhando o nevão por detrás da janela:
– Coisa tão rara, uma Páscoa branca.
– A janela, dantes, era muito estreita – digo eu – mas acho-a bonita assim larga.
E ela, surpreendida:
– Conhecia a casa? – Conhecia. E as macieiras também.»

Ilse Losa in “Páscoa Branca”, Caminhos Sem Destino, p.200
(Edições Afrontamento, Porto, 1991.)

Publicado pela primeira vez  em O Barco afundado (1979)

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Sugestão-  artigo de  análise literária de Karina Marques: O peso da memória coletiva na obra de Ilse Losa e Samuel Rawet (…) (2012)

A flor azul – 1955


Filme com as ilustrações de Mário Bonito e Fernando Bento (sobrecapa..) para o livro de Ilse Losa A flor azul  publicado pela Livraria Figueirinhas em 1955.

Música: “Sneeuwland” de Oskar Schuster (fonte http://freemusicarchive.org/ )

Beatriz e o plátano

Para acompanhar a leitura do livro... com fotos de (verdadeiros) plátanos monumentais. *

O Príncipe Nabo

2000_IlseLosa_principenabo_manuelaBacelarO Príncipe Nabo / Ilse Losa ; il. Manuela Bacelar. – [s.l.] : Afrontamento, 2000. – (Tetras e letras ; 27)

Recensão Casa da Leitura:
«A hesitação entre dois universos, testemunhados quer pela presença de dois grupos distintos de personagens, quer pela referência a dois espaços antitéticos, o dos “pobres” e o dos “ricos”, representa a linha temática orientadora desta peça. Esta é uma obra em que a auto-aprendizagem “daquilo que realmente conta na vida” surge ficcionalizada não raras vezes através dos três tipos de cómico, o de linguagem, o de situação e o de carácter. Aspectos como o recurso a expressões de tonalidade francesa, os nomes dos pretendentes da Princesa Beatriz e as sucessivas situações de pedido e de recusa da sua mão ou, ainda, a presença do Bobo, com cuja actuação encerra a acção, contribuem para a construção humorística que caracteriza a obra. »

  • Outras edições:

O Príncipe Nabo da Nabolândia ; João e Guida / Ilse Losa. – Porto : Livraria Divulgação, 1962  (nota: título da capa : 2 peças infantis)

 Princípe nabo / Ilse Losa ; il. Fernando Relvas. – Lisboa : Plátano, 1978. – (Plátano de Abril ; 10) (Fonte da imagem  aqui )

Miguel: o expositor

Miguel : o expositor / Ilse Losa ; il. António Modesto. – 2ª ed. – Porto : Afrontamento, 1993. – (Tretas e Letras ; 10)

1993_IlseLosa_2e_miguel Recensão casa da Leitura: «Miguel vive num bairro pobre e passa muito tempo sozinho; entretinha-se a pintar o pavimento da rua. Um dia oferecem-lhe tintas e pincéis e, feliz, pinta uma cartolina que, depois de emoldurada, é colocada, na rua, à venda, por imposição do homem que vive com a mãe. Uma professora convida-o para participar numa exposição colectiva na Câmara Municipal, mas a experiência é frustrante, já que ele é diferente porque pensa e é criativo. Volta à rua e consegue vender o quadro pelo preço justo. Entrega todo o dinheiro à mãe, que, contente, antevê a possibilidade de se venderem mais quadros do Miguel. Subitamente, a mãe, revoltada consigo mesma, toma consciência da fragilidade do filho e abraça-o com imensa ternura. | Rui Marques Veloso»

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———1ª edição:

O Expositor / Ilse Losa ; il. António Modesto. – Porto : Afrontamento, 1982

Fonte da imagem 

> Sobre este ilustrador ler de José António Gomes: “António Modesto: uma introdução (… )”

O Senhor Pechincha, seguido de O Bonifácio

O senhor Pechincha ; seguido de O Bonifácio / Ilse Losa ; il. António Lucena. – Porto : Afrontamento, 1993. – 45, [2] p. : muito il. ; 24 cm. – (Tretas e letras ; 24)  aqui

1993_ilselosa_senhorpechincha_antoniomodesto

Sinopse da editora: «Dois óptimos textos de Ilse Losa que ganham uma nova dimensão enquadrados pelas ilustrações de António Lucena, nome que o Pintor António Quadros usava quando fazia ilustração.
Junta-se assim o universo imaginativo das histórias de Ilse Losa com todo o humor, ironia e ternura em que esta autora é exímia, com o rigor do desenho, a profusão da cor, o movimento e a criatividade quase só possíveis em António Quadros.»

Ler “Ilse Losa e o Senhor Pechincha” por José António Gomes  NELA (Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da ESE do Porto)

Ver a 1ª edição de Bonifácio (1980)  com ilustrações de Miranda.