“Páscoa Branca” – excerto

«(…) Começa a nevar. Silenciosamente a nevar. E a terra, endurecida como um cadáver, cobre-se de branco, os ramos começam a desenhar-se em branco sobre o céu de um cinzento agora mais claro, numa delicadeza impressionante, confundindo-se com ele. Contenho a respiração. Toda eu espanto. Os flocos balançam, bailam lá fora onde não há sopro de vento, dentro do quarto, dentro de mim, brancura imaculada, tranquila… e então; por entre os troncos negros das macieiras, mudo como a natureza, a cauda entre as pernas altas, flocos de neve a cobrir-lhe o pêlo, o cão. Seguiu- me, portanto. Como há pouco, no cimo da escada da gare, fico transida de emoção. Era-me dolorosamente familiar, conhecia-o desde sempre, amava-o desde sempre, ouvia-o uivar por mim nas horas de angústia. “Tu?”, perguntei. E a palavra implantou-se no silêncio como uma árvore no deserto.
(…)
Vasto e verde, tão verde, o planalto estende-se até à orla da floresta. Nunca antes o azul do céu fora tão transparente, o amarelo dos dentes-de-leão tão radiante, o ar tão macio. Lado a lado, o cão e eu detemo-nos para em seguida recomeçarmos o nosso jogo de agarra, correndo e saltando para a direita, para a esquerda e em ziguezague, até cairmos exaustos sobre a relva, eu a cara em fogo, ele ofegante, a língua de fora. “Pobre, pobre”, digo e enterro a cabeça no seu pêlo, de onde lhe tiro carinhosamente algumas pétalas de macieira. E falo-lhe. Conto-lhe coisas, muitas coisas, e ele ouve, silencioso, pacífico como o cair das pétalas na Primavera e o da neve no Inverno. Não há pressa, não há horas. Tínhamos abandonado o tempo para nos instalarmos na vasta planície verde, onde as flores em lume são eternas. Ali não se conhece nem fim nem princípio, nada foi, nada é, nada será. Uma criança fala, e as suas palavras vão de alma a alma, em linha recta, sem curvas, sem desvios. Palavras sem fechaduras, sem chaves, sem rótulos, mas livres como pássaros, nuas como adolescentes banhando-se em fontes de floresta, imensas como o mar onde navegam barcos que não buscam margens nem destinos. E não há idade encerrada num ciclo iniciado nas trevas e terminando nas trevas. Sonhamos como se tivéssemos chegado da luz, vivêssemos na luz, regressássemos à luz…

- Posso entrar?
É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de morango, diz:
– O café vai-lhe saber bem, num dia como este.
E olhando o nevão por detrás da janela:
– Coisa tão rara, uma Páscoa branca.
– A janela, dantes, era muito estreita – digo eu – mas acho-a bonita assim larga.
E ela, surpreendida:
– Conhecia a casa? – Conhecia. E as macieiras também.»

Ilse Losa in “Páscoa Branca”, Caminhos Sem Destino, p.200
(Edições Afrontamento, Porto, 1991.)

Publicado pela primeira vez  em O Barco afundado (1979)

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Sugestão-  artigo de  análise literária de Karina Marques: O peso da memória coletiva na obra de Ilse Losa e Samuel Rawet (…) (2012)

“Beatriz e o Plátano” – Crónica de Ivo Cruz

«(…)Recebi-o como prémio. O meu primeiro prémio. Na escola Pero Vaz de Caminha, nome do escrivão da armada de navios de Pedro Alvares Cabral, escola nova que eu estreei, no meu 7ºano, ganhei o primeiro prémio de desenho. O melhor desenho da escola. Nunca tinha ganho qualquer prémio, até aí e poucos realmente ganhei até agora. À frente de toda a gente, o director da escola deu-me um livro. Disse umas palavras bonitas, eu curvei a boca e acenei a cabeça e depois da euforia e entusiasmo do reconhecimento, caí um pouco em mim pensando, enquanto fios de suor caiam do meu rosto, depois de um joguinho de bola, que se calhar seria melhor terem-me oferecido a bolita que deram ao terceiro lugar. Nesse dia não prestei muita atenção ao livro que recebi. Educado, agradeci o meu presente e com regozijo, recebi as palmas de todos. Meti o livro na sacola, da mesma forma que fazia com os livros da escola. Era mais um pensei. Depois lembro-me de correr para o campo, como qualquer criança o faz: com energia. E muitas mais pingas de suor perdi, até chegar a casa.

De regresso a casa, mal sabia que transportava um livro que iria emoldurar a minha infância e tornar-se um ícone, um valor para o que faço. Lutar pelo que acredito. Ilse Losa a escritora, escreveu-o numa prosa acessível, e até sedutora para crianças como eu, pouco habituadas a ler. (…)»  

  •  A ler o texto completo, obrigatoriamente ;-) aqui, pelo que diz dos plátanos, pelo que diz da leitura, pelo que diz deste livro de Ilse Losa.

Ilse Losa na revista Blimunda nº 10

nº 10 da Revista Digital Blimunda dedica a sua  secção Infantil e Juvenil  (p. 23 a 43) a Ilse Losa, no âmbito do centenário do seu nascimento. Podem ler-se os seguintes artigos:

  • “Ilse Losa , uma voz inovadora” – José António Gomes;
  • “Era uma vez …dois cães  num país açaimado”- Ana Cristina Vasconcelos;
  • “Ilse Losa”  – Álvaro Magalhães;
  • “A Ilse” – Manuela Bacelar ;
  • Reprodução fac-símile do texto de Ilse Losa  “A Linguagem na Literatura Infantil”, publicado em 1948 na revista Vértice.
«(…) Um número feliz da Blimunda» aqui 

(via O Jardim Assombrado)

A flor azul – 1955


Filme com as ilustrações de Mário Bonito e Fernando Bento (sobrecapa..) para o livro de Ilse Losa A flor azul  publicado pela Livraria Figueirinhas em 1955.

Música: “Sneeuwland” de Oskar Schuster (fonte http://freemusicarchive.org/ )

Beatriz e o plátano

Para acompanhar a leitura do livro... com fotos de (verdadeiros) plátanos monumentais. *

“Em todas as janelas…”

IlseLosa-inJungle World Nr. 12, 21. März 2013

fonte: Jungle World Nr. 12, 21. März 2013
http://jungle-world.com/artikel/2013/12/47383.html

21-03-2013:
« “An allen Fenstern Lumenfetzen”

Eine Erinnerung an die deutsch-jüdische Autorin Ilse Losa, die 1933 nach Portugal ins Exil ging und in Deutschland heute vergessen ist.».

Interessante  artigo de opinião, de teor recriminativo, assinalando a comemoração do centenário de Ilse Losa em Portugal e lamentando a pouca atenção dada à escritora na Alemanha :
«(…) Em Portugal,  este ano é comemorado graças a um carinho especial nutrido por Ilse Losa, muitas bibliotecas têm exposições da sua obra  e os seus livros tornaram-se leitura obrigatória nas escolas portuguesas.   Quem os quiser ler , no seu país de origem, apenas pode comprar poucas  traduções e em segunda mão.  O seu trabalho despertou pouco interesse, e sete anos depois de sua morte, ela é quase esquecida na Alemanha. O que é lamentável, porque os seus contos e romances são caracterizados por uma beleza melancólica e suas reflexões sobre a importância da memória e do passado constituem  também um documento único sobre a vida dos refugiados judeus alemães em Portugal. ()» (excerto adaptado em pt via googletradutor)

Obrigada, Ilse Losa